quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A vivência entre as Cantadeiras do Souza e Déa Trancoso

Foto: Leonil Junior
Por Ana Ferrareze

Raimunda nunca desafina. Ela faz a terceira voz das Cantadeiras do Souza, grupo também formado por suas irmãs Marly, Marlene e Djanira, sua filha Elisabeth e a cunhada, Ercy, em Souza, distrito de Jequitibá. Com 83 anos, diz que a memória anda falhando, mas prova o contrário todo tempo. São muitas ladainhas, cantigas de roda, novenas, pastoris e outros gêneros entoados pelas seis mulheres, que desde crianças já acompanhavam o pai, o falecido mestre Seu Juvercino Gonçalves dos Santos, nas procissões e em outras tradições do catolicismo popular. “Antigamente, toda festa tinha roda, cantoria. Era a oportunidade de cantar, dançar e segurar na mão dos rapazes”, relembra Dona Raimunda. “É, menina, antes não podia namorar que nem hoje, não”. Ela mesma só foi pegar na mão de seu grande amor, Jaime Souza Carvalho, pouco antes do casamento. Lembra dele com saudade. “Era homem trabalhador, honesto, marido bom demais. Mas Deus levou faz treze anos, fazer o quê, né? Todo mundo fala pra eu arrumar um namorado, mas só se for igual a ele. Não vou achar, não".

As seis cantadeiras nunca fizeram aula de canto. Apresentam timbres e afinações sofisticados, uma impressionante harmonização de vozes. No Folclorata, quem teve a honra de realizar a vivência com elas foi a cantora mineira Déa Trancoso. “As vozes são tão orgânicas que parece que elas frequentam a escola de canto há 200 anos”, se impressiona Déa. “A Raimunda tem uma voz raríssima, é a mais sofisticada das seis”. A cantora conta um episódio que presenciou e a marcou durante a experiência. Em uma entrevista para a televisão, Dona Raimunda foi cantar e colocou a mão no diafragma. “Ela fez isso para não desafinar, para buscar o agudo da voz e segurar a nota”, diz. “Elas não dão nome às técnicas, mas sabem. O ofício de cantar é uma sapiência delas. Têm consciência de coisas que levei anos para assimilar”.

As Cantadeiras do Souza oficializaram o grupo em 1992, quando conheceram o cantador-pesquisador da cultura popular brasileira, Eliezer Teixeira. Seu Juvercino acompanhou as seis até o fim da vida. Aos 97 anos, viajou a São Paulo para se apresentar com elas em um show, junto com o grupo A Barca, outro grande parceiro. “Meu pai cantou na Folia até no mês em que morreu, aos 99 anos”, conta Dona Raimunda. “Então a senhora tem muitos anos de cantoria pela frente, hein?”, constato. “De dançar e de ir em festa eu não canso. E não gosto de ficar parada: bordo, faço tricô, crochê, doce de leite. Racho lenha, faço palheiro, lavo roupa”, ouço como resposta. Com um abraço, eu e Dona Raimunda encerramos a prosa e ela me garante: vai chegar aos 120 anos cantando. Sem desafinar.

As trocas no Folclorata

Foto: Leonil Junior
Foto: Leonil Junior
Sobre a experiência da vivência com as Cantadeiras do Souza, Déa Trancoso tem muito a dizer. Mas principalmente a sentir. Cantora e compositora, mostra influências muito fortes de violeiros, foliões e congadeiros do Vale do Jequitinhonha, onde nasceu e cresceu, filha de seresteiros. Sua voz transporta qualquer um ao sertão, faz conhecer a cultura popular brasileira por meio de ritmos como samba de caboclo e de roda, maracatu, congo dobrado, coco e catimbó. A rotina com a família de Souza a trouxe de volta a esse sertão, à simplicidade do dia a dia, às noites de cantoria. Impressionou-se com Jequitibá, tão perto de Belo Horizonte, mas tão distinta da capital. “Aqui o povo é plantado na terra. Tentei trazer a elas um pouco de metafísica, com exercícios que as fizeram imaginar a Terra como um ioiô, lembrar que estamos suspensos no ar”, conta Déa. “E também quis mostrar como o abraço, o afeto, que é tão cotidiano para elas, é cura, tem poder. Elas podem se valer muito disso”.

Na apresentação que fizeram juntas no sábado, 12 de setembro, Déa propôs dispensarem os microfones e o palco, mesmo com o barulho do público. Cantaram unidas, com palmas, expressão corporal e usando a potência das vozes em coro. “Com essa vivência do Folclorata aprendi a usar vozes às quais não costumo recorrer. Que não são nada fáceis. Meu ouvido ficou pegado por essa riqueza que as cantadeiras apresentam”.

O encerramento ficou por conta de Marly, que fez questão de apresentar As Pastorinhas no palco para fechar o show. “Por isso o Vozes de Mestres é raro”, declara Déa. “Ele cria plataformas para que tudo aconteça com mais profundidade, permite que os mestres se mostrem mais. Porque tem muita coisa acontecendo no espaço interno, que muitos projetos parecidos não conseguem alcançar. Escolhendo o desfecho, Marly revisitou seus desejos, deu espaço a eles”.

domingo, 13 de setembro de 2015

O encontro de Mestre Raimundinho e Mestra Ana Lúcia


Texto por Magali Colonetti / Fotos Leonil Junior


Um dos resultados das vivências promovidas pelo 1º Folclorata, que acontece paralelamente à 27ª edição do Festival de Folclore de Jequitibá, é a apresentação dos grupos e mestres no palco principal. A primeira dupla que mostrou um pouco do que viveu musicalmente foi o Mestre Raimundinho com o Congado de Nossa Senhora do Rosário e a Mestra Ana Lúcia e Raízes do Coco de Pernambuco.  Desse encontro de mestres um batuque foi tocado, algo que o Mestre Raimundinho ensinou para seus visitantes. A voz dele estava forte e ganhou o acompanhamento de Ana Lúcia, Elaine Gomes e Juninho. A música serviu também de transição entre as apresentações dos grupos.

- Que linda a sua voz hoje mestre Raimundinho.
- Gostou é? Que bom que gostou. Cantar é algo muito sério, hoje já não consigo cantar muito. Cansa um pouco. Eu era bom mesmo quando tinha 40 anos.

Hoje ele tem 93 anos e durante a apresentação com toda a guarda a voz de Raimundinho realmente fica mais fraca. Os outros integrantes do grupo auxiliam quando é possível e seguem sua cantoria num coro de vozes que aos poucos vão se completando. “Pode ver que no começo a gente não tá alinhado, mas é só cantar um pouquinho a gente afina”, contou Derli sobrinho do mestre e que participa do Congado há 35 anos, desses 20 são no congado comandado pelo tio. “Mas menina, quando cheguei na casa dele ele cantava baixinho e dizia não lembrar das músicas. Depois foi se soltando e cantando todas as músicas. Eu disse pra ele: o senhor lembra sim! Não é de admirar?”, contou a mestra Ana Lúcia. Ela, Elaine e Juninho ficaram alguns dias na casa da família do mestre. Aos poucos foram vivenciando a rotina da família, fazendo amizade com a mulher do mestre, a Dona Rita, e descobriram que ela também tem uma linda voz.

Festa na varanda

A casa de Raimundinho é no distrito de Perobas, no município de Jequitiba, em Minas Gerais. Seguindo uma linha arquitetônica comum da região, a varanda ocupa toda a extensão da frente da casa. Nela a família do mestre recebeu os integrantes da guarda e os visitantes para uma demonstração de cantos da Encomendação das Almas e Folia dos Reis. Os vizinhos também foram lá acompanhar a apresentação que começou com algumas músicas da encomendação. Na frente da porta da casa e com uma matraca na mão, ele explicou usa somente esse objeto durante a encomendação das almas. Geralmente são três batidas com a matraca e o som representa o barulho feito ao pregar Jesus na cruz. Depois de algumas músicas a pergunta para todos: “Ô gente que tal ocês acho?”



Mestre Raimundinho. Foto: Leonil Junior
Varanda da casa de Raimundinho cheia. Foto: Leonil Junior

Mestra Ana Lúcia e a esposa de Raimundinho, Dona Rita. Foto: Leonil Junior

Mudando de lugar, indo para o lado esquerdo da casa, e já com outros instrumentos o grupo de nove pessoas cantou Folia de Reis. Eles cantaram para o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora das Almas, São Sebastião e Nossa Senhora de Fátima. Enquanto isso a turma da Mestra Ana Lúcia só observava, mas entraram em cena quando a dança do pula o litro foi feita. Todos entraram na roda para dançar.

- E como foi essa vivência?
- Espero que tenha sido tão importante pra eles como foi pra nós”, disse Ana Lúcia.

Quando perguntei ao Mestre Raimundinho sobre o que achou do povo que ficou na sua casa ele contou com aquele jeitinho todo especial “Nossa, pessoas lindas demais. A gente fica tão satisfeito. Ruim é que agora eles vão embora. Quando vamos nos ver outra vez? De gente assim a gente não esquece não”, disse.

As flores de Iraci

Foto: Magali Colonetti
Por Ana Ferrareze

Iraci Leal Pereira de Oliveira faz muitas coisas nesta vida, mas sua grande paixão é ser Pastorinha. Filha de Mestre Zé Limão, é a floreira da apresentação. Não podia ser diferente. Iraci demonstra tanta paz de espírito que parece estar o tempo inteiro espalhando flores por aí. “Tá no sangue, né? Nasci e cresci vendo meu pai cantar e tocar. Minha mãe também canta. É de berço”, diz. Entre uma prosa e outra, pede para nos contar sobre as Pastorinhas. Fala sobre a estrela, os três pastores, a contra-mestra, a jardineira, a rica-floreira, a libertina, a borboleta e as duas ciganas, cantando um pouco dos versos que cada uma entoa durante as apresentações. O sorriso fica ainda maior quando chega em sua parte. A voz fica mais forte e parece que é Natal. Que estamos em frente a uma casa no distrito de Lagoa Trindade, junto ao presépio, renovando as esperanças para o ano que logo se anuncia.

As Pastorinhas começam a se apresentar na noite de 24 para 25 de dezembro e vão até o dia 6 de janeiro. Passam pelas casas da comunidade encenando o nascimento do menino Jesus com coral afinado e tocadores de tambor, pandeiro, cavaquinho, viola. Mesmo com tanta magia, a tradição fica alguns anos sem sair por falta de coro. “Quando a gente ama, tem paixão, permanece. Mas não é todo mundo que sente isso”, diz Iraci. “Mesmo assim, não importa se deixamos passar algum ano, a gente volta sempre”. Vida longa às Pastorinhas!


sábado, 12 de setembro de 2015

A encomendação das almas por Mestre Joaquim


Texto Magali Colonetti / Foto: Leonil Junior

Ainda bem que Joaquim Cândido é mestre da cultura popular de Jequitibá. Escrevo isso porque ao ser mestre ele tem como função contar, divulgar e mostrar a cultura que representa. Nessa sua função e como um bom anfitrião ele viu que precisávamos saber mais sobre a Encomendação das Almas que aconteceu mais cedo na casa onde ele e as meninas do Vozes Bugras estavam. Joaquim foi o mestre que recebeu Anabel Andrés e Lucimara Bispo nesses dias de vivência no Folclorata 2015. Resumindo a história: saímos de Jequitibá rumo à comunidade do Baú para acompanhar uma amostra de encomendação na noite de quinta-feira (10). Nessas andanças acabamos na casa do Raimundinho, outro mestre, após perguntar se ali seria a encomendação e ouvir que sim. Ficamos por lá um tempo até descobrir que estávamos no lugar errado. Algo realmente aceitável pensando que ao redor da cidade são 18 comunidades riquíssimas quando se fala em folclore.

- Vocês querem ver a mortalha? A roupa que usamos na encomendação?
- Claro!
- Então venham aqui comigo.

Ele nos levou até a frente da casa em que a celebração foi feita. Lá mostrou a bata branca que tem uma cruz estampada usada durante a quaresma, nos dias que passam pelas casas da comunidade fazendo a encomendação. O cortejo do grupo, com geralmente 13 pessoas, inicia por volta das 19h e vai até a meia noite. “São três, cinco, sete casas por noite, mas sempre é um número ímpar. Ainda não sei o porquê, mas estou pesquisando para entender isso”, contou Joaquim. No último dia do cortejo o grupo vai até o cemitério e assim encerra todo o processo.

- E vocês conhecem a matraca?
- Ah, conheço sim. Vi o mestre Raimundinho segurando ela enquanto cantava. É de madeira né?
- É sim, é essa aqui. E sabe o que o som dela significa? É o barulho dos pregos que foram colocados em Jesus na cruz.

Geralmente são três toques entre uma música e outra. E só. Os cânticos da encomendação de almas são feitos sem nenhum outros instrumento.

Não pode olhar para trás
Quando o grupo comandado por Joaquim chega às casas, a primeira coisa que procuram é a cruz. A maioria das construções da região de Jequitibá ainda tem uma cruz na frente de casa. Perguntei uma vez para o Geraldo, um dos participantes do grupo de Folia de Reis do Zé Limão também de Jequitibá, o porquê disso e ele disse "é a cruz de Jesus, para lembrar que cada um tem a sua também". Depois da saudação todos vão para a frente da porta da casa que já está com as janelas todas fechadas e começam a cantar.  Em muitos casos as pessoas não saem por existir certo medo das almas. “Dizem que se ao acompanhar o cortejo você olhar para trás enxerga todas as almas que caminham junto. Eu uma vez olhei e não vi nada”, contou o Geraldo.

-  E o senhor já olhou pra trás durante uma encomendação? – perguntei ao Joaquim.
- Não, nunca olhei nesses 20 anos. É uma questão de respeito também e respeito muito o que faço.

O grupo até pode não ver as pessoas ou as almas que, dizem, os acompanhar, mas sempre vão encontrar uma mesa com um cafezinho esperando por eles no lado de fora da casa.

A vivência com o mestre
O Folclorata junto com o 27º Festival de Folclore de Jequitibá proporcionou um intercambio cultural entre cinco artistas e cinco grupos tradicionais. Anabel e Lucimara do Vozes Bugras ficaram alguns dias na casa de Joaquim e estavam lá acompanhando a Encomendação das Almas que aconteceu na casa da Maria do Rosário Dias Rodrigues. Ela que, por sinal, estava feliz demais ao receber tantas pessoas por lá.

- Vem aqui comer canjica, eu tinha esquecido que fiz e minha filha lembrou dela.
- Nossa está muito boa Dona Maria! 
- Está mesmo? Não tem amendoim, por isso não coloquei. Mas amanhã vou até Jequitibá comprar amendoim.

Maria disse que não imaginava o quanto seria assim bom receber tantas pessoas. Teve música, causo, moda de viola e um bolo de milho delicioso também. Uma troca entre culturas que surpreendeu o mestre Joaquim. “Ele ficou preocupado quando chegamos, imagina receber alguém diferente em casa né? Mas ele aos poucos foi se abrindo. Ele é um grande pesquisador, tem tudo em pastas e CD´s de outras folias. Ele também faz questão de falar dos outros mestres e nos apresentou ao Raimundinho. Lembro que quando eles se encontraram o Raimundinho perguntou como estava sendo tudo, e ele respondeu: está bom demais, elas são iguais a gente”, contou Anabel. As meninas chegaram devagar e foram ganhando espaço na rotina da casa de Joaquim. Nessa vivência descobriram que ele também é um grande tocador de viola. “Perguntaram pra nós o que estamos planejando, o que queremos é ficar por aqui pra sempre. Falar alguma coisa agora é ser superficial demais. Vivemos algo muito forte e sabemos que vai resultar em muitas coisas”, contou Lucimara.


“Bendita seja nossa senhora das dores
todo circulada de anjo, coroada de flor
domingo de páscoa da ressurreição, estava senhora estava
com seu filhinho na Glória.
Bendita seja.”

Música da encomendação preferida da Dona Maria

Quando o povo se une as coisas dão certo



Foto: Leonil Junior

Por Ana Ferrareze

“Quando o povo se une as coisas dão certo”. Este é o lema do Meninas de Sinhá, que se apresentou na noite de sexta-feira, 11 de setembro, no Folclorata 2015. Abraçadas, as 16 integrantes que vieram a Jequitibá bradam a frase três vezes, com força, mostrando sua união antes de subir ao palco. Quem a disse primeiro foi Dona Valdete Cordeiro, líder que fundou o grupo em 1989 e desde então mudou radicalmente a vida de dezenas de mulheres. Ela morreu no ano passado, deixando, além de muita saudade, inspiração para suas meninas e todas as outras que vivem neste Brasil patriarcal. 
 
As mulheres do grupo têm entre 54 e 95 anos. Todas as 23 moram no bairro Alto Vera Cruz, periferia de Belo Horizonte. Foi lá mesmo que tudo começou. Dona Valdete passava todos os dias em frente ao posto de saúde e se assombrava com a quantidade de remédios que as senhoras levavam na sacola para tomar. Teve a certeza de que aquilo não era certo: era coisa de cabeça, não necessidade. Juntou algumas delas para um bate-papo e fundou o, na época, Lar Feliz. “Logo mudamos o nome, já que este não tinha mais nada a ver com as mulheres que nos tornamos. Estávamos cansadas de trabalhar em casa, de ficar sem tempo para nos arrumar, nos divertir”, relembra Ephigênia Lopes, de 75 anos, a compositora do grupo. O Meninas de Sinhá tirou a maioria de suas integrantes do, como elas mesmas dizem, fundo do poço. “Sabe, eu não vivia, eu vegetava”, conta Maria Geraldina di Paula, de 76 anos. “Não gostava de sair de casa, de conversar com as pessoas. Mudei da água para o vinho”.

O grande objetivo do grupo é trabalhar a autoestima das mulheres, mostrando a elas e ao mundo seu enorme potencial, força e beleza. Desde o ano passado, mais um foi levado ao topo: não deixar o sonho de Dona Valdete morrer. Quando falam da líder, os olhos brilham. Ephigênia foi sua amiga de infância e acompanhou toda sua trajetória em prol da comunidade. Era ela quem ia atrás de políticos para resolver os problemas da região. No início, contratou professores para ensinar as Meninas a tocar os instrumentos. Algumas já sabiam e só aprimoraram a arte. Outras se descobriram na música.

Ephigênia Lopes (Foto: Leonil Junior)

Dorvalina Maria de Oliveira (Foto: Leonil Junior)
No show, elas sobem ao palco irradiando charme, com longas saias floridas, flor no cabelo e batom nos lábios. Com viola, pandeiro, zabumba, xequerê e sanfona, cantam e dançam antigas cantigas de roda e cirandas, releituras populares e letras de autoria de Ephigênia. Ela, inclusive, acabou de gravar seu primeiro CD, Viola Antiga, com samba, bolero, gafieira. “Desde que fundamos o grupo tenho inspiração demais pra escrever”, conta. “E abordo temas que envolvem a história do Brasil, o negro, a alegria de viver”. 

No meio do show de sexta-feira, Dorvalina Maria de Oliveira não se aguenta, pega o microfone e desabafa: “Antes eu tomava medicamento para dormir, para tudo. Em seis meses no grupo, ganhei alta do psicólogo. Andava despenteada, mas olha agora. Tô tão bonita, né, gente?”. E avisa: quem tem mãe mais “madurinha”, como elas, leve para cantar e dançar. “Vale mais que remédio”.


Priscila Magella canta o Velho Chico

Foto: Leonil Junior
Por Ana Ferrareze 

Chora meu rio, chora. Chora minha alma, chora. Chora que eu já vou embora. Só vim aqui me despedir de mim. Canoeiro foi embora, vaporzeiro aposentou. Nestas lindas águas finas, o que resta é meu amor. Quem dera se todo mundo chorasse na beira d’água pra render mais um cadinho. E Oxum lá se banhasse e adocicasse cada lágrima pra caboclo banhar.

Priscila Magella tem uma relação de alma com o rio São Francisco. Nascida em Pirapora, ao norte de Minas Gerais, passou a maior parte da vida na companhia das águas que nascem na Serra da Canastra e passam por cinco estados brasileiros, desaguando no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas. Na música Lamento ao Velho Chico, ela escracha um sentimento que inunda o coração. “Eu me sinto a voz do rio, sua representante”, diz. A cantora e compositora participou ativamente da luta contra a transposição do rio, em 2008, em Cabrobó, Pernambuco. E sente doído o Velho Chico indo embora aos poucos, por conta dos problemas ambientais que sofre, como desmatamento e poluição. “Vemos o mar invadindo o Chico, mas não há dor, ele quer ir embora. A gente comia, bebia, vivia nosso amor com o rio e para ele, conversávamos. É preciso entender esse sentimento, saber que antes era isso. Não queria que ele morresse jamais”, desabafa Priscila.

Foi mesmo o rio que ajudou Priscila a começar a cantar. Sem dinheiro para pagar aulas de canto, usava suas águas para afinar as cordas vocais, mexendo as mãos, percebendo seu barulho. A inspiração também veio de sua mãe, que sempre cantou muito em casa, e de seu tio Magela, o grande ídolo. Ele foi um dos maiores representantes da música barranqueira, que canta o cotidiano e sutilezas das comunidades ribeirinhas, estilo que Priscila também adotou, já que é “tudo o que sei, o que aprendi desde o começo”. O tio morreu quando ela tinha apenas seis anos, mas a conexão entre os dois permaneceu. Ele está vivo nas canções da mineira e em suas histórias, que sempre o citam. E também na luta pela música barranqueira, que resiste forte para continuar ecoando.

As composições e a voz de Priscila podem ser ouvidas no CD A Barranqueira, lançado em 2012, com 13 músicas de autoria própria, de Magela e de compositores como Pepeh Paraguassu e Paulo Vieira.

Priscila Magella e Mestre Zé Limão (Foto: Leonil Junior)
No Folclorata, ela faz a vivência com o Mestre Zé Limão, da Folia de Santos Reis de Doutor Campolina, do povoado Lagoa Trindade. “Minha infância foi na terra vermelha, como aqui. Vir aqui e conhecer a família de Seu Zé abriu um leque muito grande sobre cultura popular. Sem dúvidas, é uma das maiores experiências da minha vida. Estamos trocando, vivendo e convivendo”, declara. Sem dúvida ouviremos falar muito de Priscila Magella e de sua música barranqueira cantando o Velho Chico.

Ouça a música Lamento ao Velho Chico aqui.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Congado e o Candombe da família Biano

Texto Magali Colonetti / Fotos Leonil Jr.


O local de encontro para o ensaio de quarta-feira (9) foi a varanda que tem a extensão de toda a frente da casa amarela da Rainha Congo de Baldim, a Durvalina Soares que vive no distrito de Jequitibá, Minas Gerais, chamado Doutor Campolina. Seus filhos, filhas e netos foram chegando aos poucos. Seu irmão que é o capitão da Guarda de Nossa Senhora do Rosário também chegou com outra parte da família que faz parte da guarda. Hoje ele tem 87 anos e canta algumas vezes apenas. Agora é sua filha Rosimeire Soares Moreira quem comanda a apresentação do Congado. Foi ela que começou o ensaio rezando para Nossa Senhora do Rosário abençoar todos que estavam ali presentes. Além da família, estávamos nós da equipe do Folclorata, estudantes de antropologia e alguns artistas que estão vivenciando a cultura do povo de Jequitibá. Todos ali ao redor de uma mesa branca, com uma toalha também branca e que tinha em cima as imagens de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Conceição.  Sr.João ficou sentadinho meio de longe acompanhando tudo. Meire, como é conhecida por todos, realmente comandou e puxou primeiro algumas músicas do congado.




O ensaio seguiu e o candombe começou a ser tocado quando os atabaques de Babilak Bah e Almin entraram em cena. Os dois são pai e filho, são de Belo Horizonte e estão vivendo uma troca de cultura com a família Biano. “O que mais tem me chamado a atenção é a simplicidade deles. É uma outra realidade, um outro oxigênio, uma outra cozinha e modo de vida”, comentou Almin. Para Babilak esses dias foram de desconstrução emocionalmente e de um melhor entendimento como negro. "Vi nos Bianos a metáfora do Brasil. Uma família que tenta se organizar no período pró-abolição. Vi reflexos da minha família ali", disse. Antes de começar o novo ritmo, Meire explicou que o candombe é uma dança que não tem nada escrito, mas que é mais místico que o Congado. “Eles cantavam com uma linguagem que os outros não entendiam” explicou deixando claro que era de propósito isso. Sr. João disse que de importância primeiro é o Candombe e depois o congo por causa da lenda em que a rainha só saiu do mar quando um grupo de Candombe chamou. Dizem que isso aconteceu porque o grupo de negros chegou com instrumentos simples e era isso que a santa do mar queria. Logo no começo o pai e o filho foram solicitados a sair dos atabaques por estarem fazendo algo muito parecido com samba e não era isso que seria tocado ali. Raquel e a irmã Tininha mostraram a forma certa de tocar e o ensaio seguiu. Os meninos aprenderam e puderam tocar com eles um pouco mais no final do ensaio. "Nunca tinha ido a uma roda de candombe, foi como uma iniciação. Tô voltando outro sujeito para casa", Em alguns momentos o Sr. João levantava de sua cadeira e mostrava porque é capitão há tanto tempo, mostrava toda sua força e sabedoria.

Todo mundo entrou na roda
Foram quase duas horas de música em que todos puderam cantar e aprender um pouco mais. Babilak cantou, seu filho Almin também, algumas meninas da produção e quando o grupo de Pernambuco chegou a festa recomeçou. Uma pausa para a alimentação tinha sido feita onde numa mesa do outro lado da varanda dividiam espaço com a imagem de Nossa Senhora da Aparecida alguns bolos, pães e refrigerantes. Mas quando a turma da mestra Ana Lúcia e Raízes do Coco pediu mais um bucadinho de festa, Meire logo comandou um recomeço. A turma entrou na roda cantando e dançando coco. “Às vezes a gente fica amoada, pensa em não fazer mais. Mas chega aqui e escuta um tambor e não para mais, está no sangue”, contou dizendo que se fosse possível a festa seguiria até bem tarde.







E assim, ela e seus familiares formam um grupo de quase 30 pessoas que continua seguindo com a tradição dos Biano. E os pequeninhos nessas brincadeiras vão sendo preparados para seguir. Raquel Elias Lopes Silva estava lá com seu filho Gledston Elias Silva que com quatro anos cantarolou alguns cantos, tocou e participou da festa. A apresetanção da Guarda de Nossa Senhora do Rosário |Bianos convidam Babilak Bah (MG) será no domingo, às 13h, no palco principal do 27º Festival de Folclore de Jequitibá convida Folclorata Encontro de Culturas Populares.